segunda-feira, 29 de junho de 2009

São inúteis e desnecessárias as flores?

A Igreja é por natureza missionária: "Ide por todo o mundo..." e é chamada a anunciar o evangelho ao mundo e a torná-lo próximo dos Homens.
Dentro deste contexto, pode parecer que a vida monástica e contemplativa é desnecessária e inútil... São porventura inúteis e desnecessárias as flores?
O monaquismo é insubstituível e completamente necessário pois, é o coração da Igreja e como tal, silênciosa e discretamente bombeia para todo o Corpo o sangue vital do Espírito, que sustenta e renova constantemente a actividade missionária da Igreja.
Além do mais, contemplativos e missionários perseguem e comunicam o mesmo Ideal: Deus.

sábado, 27 de junho de 2009

CARTA DO SUMO PONTÍFICE BENTO XVI

PARA A PROCLAMAÇÃO DE UM ANO SACERDOTAL

POR OCASIÃO DO 150.º ANIVERSÁRIO

DO DIES NATALIS DO SANTO CURA D’ARS

Amados irmãos no sacerdócio,

Na próxima solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus, sexta-feira 19 de Junho de 2009 – dia dedicado tradicionalmente à oração pela santificação do clero – tenho em mente proclamar oficialmente um «Ano Sacerdotal» por ocasião do 150.º aniversário do «dies natalis» de João Maria Vianney, o Santo Patrono de todos os párocos do mundo.[1] Tal ano, que pretende contribuir para fomentar o empenho de renovação interior de todos os sacerdotes para um seu testemunho evangélico mais vigoroso e incisivo, terminará na mesma solenidade de 2010. «O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus»: costumava dizer o Santo Cura d’Ars.[2] Esta tocante afirmação permite-nos, antes de mais nada, evocar com ternura e gratidão o dom imenso que são os sacerdotes não só para a Igreja mas também para a própria humanidade. Penso em todos os presbíteros que propõem, humilde e quotidianamente, aos fiéis cristãos e ao mundo inteiro as palavras e os gestos de Cristo, procurando aderir a Ele com os pensamentos, a vontade, os sentimentos e o estilo de toda a sua existência. Como não sublinhar as suas fadigas apostólicas, o seu serviço incansável e escondido, a sua caridade tendencialmente universal? E que dizer da fidelidade corajosa de tantos sacerdotes que, não obstante dificuldades e incompreensões, continuam fiéis à sua vocação: a de «amigos de Cristo», por Ele de modo particular chamados, escolhidos e enviados?

Eu mesmo guardo ainda no coração a recordação do primeiro pároco junto de quem exerci o meu ministério de jovem sacerdote: deixou-me o exemplo de uma dedicação sem reservas ao próprio serviço sacerdotal, a ponto de encontrar a morte durante o próprio acto de levar o viático a um doente grave. Depois repasso na memória os inumeráveis irmãos que encontrei e encontro, inclusive durante as minhas viagens pastorais às diversas nações, generosamente empenhados no exercício diário do seu ministério sacerdotal. Mas a expressão utilizada pelo Santo Cura d’Ars evoca também o Coração traspassado de Cristo com a coroa de espinhos que O envolve. E isto leva o pensamento a deter-se nas inumeráveis situações de sofrimento em que se encontram imersos muitos sacerdotes, ou porque participantes da experiência humana da dor na multiplicidade das suas manifestações, ou porque incompreendidos pelos próprios destinatários do seu ministério: como não recordar tantos sacerdotes ofendidos na sua dignidade, impedidos na sua missão e, às vezes, mesmo perseguidos até ao supremo testemunho do sangue?

Infelizmente existem também situações, nunca suficientemente deploradas, em que é a própria Igreja a sofrer pela infidelidade de alguns dos seus ministros. Daí advém então para o mundo motivo de escândalo e de repulsa. O máximo que a Igreja pode recavar de tais casos não é tanto a acintosa relevação das fraquezas dos seus ministros, como sobretudo uma renovada e consoladora consciência da grandeza do dom de Deus, concretizado em figuras esplêndidas de generosos pastores, de religiosos inflamados de amor por Deus e pelas almas, de directores espirituais esclarecidos e pacientes. A este respeito, os ensinamentos e exemplos de S. João Maria Vianney podem oferecer a todos um significativo ponto de referência. O Cura d’Ars era humilíssimo, mas consciente de ser, enquanto padre, um dom imenso para o seu povo: «Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina».[3] Falava do sacerdócio como se não conseguisse alcançar plenamente a grandeza do dom e da tarefa confiados a uma criatura humana: «Oh como é grande o padre! (…) Se lhe fosse dado compreender-se a si mesmo, morreria. (…) Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas palavras e, à sua voz, Nosso Senhor desce do céu e encerra-se numa pequena hóstia».[4] E, ao explicar aos seus fiéis a importância dos sacramentos, dizia: «Sem o sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem a há-de preparar para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. (…) Depois de Deus, o sacerdote é tudo! (…) Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no céu».[5] Estas afirmações, nascidas do coração sacerdotal daquele santo pároco, podem parecer excessivas. Nelas, porém, revela-se a sublime consideração em que ele tinha o sacramento do sacerdócio. Parecia subjugado por uma sensação de responsabilidade sem fim: «Se compreendêssemos bem o que um padre é sobre a terra, morreríamos: não de susto, mas de amor. (…) Sem o padre, a morte e a paixão de Nosso Senhor não teria servido para nada. É o padre que continua a obra da Redenção sobre a terra (…) Que aproveitaria termos uma casa cheia de ouro, senão houvesse ninguém para nos abrir a porta? O padre possui a chave dos tesouros celestes: é ele que abre a porta; é o ecónomo do bom Deus; o administrador dos seus bens (…) Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas. (…) O padre não é padre para si mesmo, é-o para vós».[6]

Tinha chegado a Ars, uma pequena aldeia com 230 habitantes, precavido pelo Bispo de que iria encontrar uma situação religiosamente precária: «Naquela paróquia, não há muito amor de Deus; infundi-lo-eis vós». Por conseguinte, achava-se plenamente consciente de que devia ir para lá a fim de encarnar a presença de Cristo, testemunhando a sua ternura salvífica: «[Meu Deus], concedei-me a conversão da minha paróquia; aceito sofrer tudo aquilo que quiserdes por todo o tempo da minha vida!»: foi com esta oração que começou a sua missão.[7] E, à conversão da sua paróquia, dedicou-se o Santo Cura com todas as suas energias, pondo no cume de cada uma das suas ideias a formação cristã do povo a ele confiado. Amados irmãos no sacerdócio, peçamos ao Senhor Jesus a graça de podermos também nós assimilar o método pastoral de S. João Maria Vianney. A primeira coisa que devemos aprender é a sua total identificação com o próprio ministério. Em Jesus, tendem a coincidir Pessoa e Missão: toda a sua acção salvífica era e é expressão do seu «Eu filial» que, desde toda a eternidade, está diante do Pai em atitude de amorosa submissão à sua vontade. Com modesta mas verdadeira analogia, também o sacerdote deve ansiar por esta identificação. Não se trata, certamente, de esquecer que a eficácia substancial do ministério permanece independentemente da santidade do ministro; mas também não se pode deixar de ter em conta a extraordinária frutificação gerada do encontro entre a santidade objectiva do ministério e a subjectiva do ministro. O Cura d’Ars principiou imediatamente este humilde e paciente trabalho de harmonização entre a sua vida de ministro e a santidade do ministério que lhe estava confiado, decidindo «habitar», mesmo materialmente, na sua igreja paroquial: «Logo que chegou, escolheu a igreja por sua habitação. (…) Entrava na igreja antes da aurora e não saía de lá senão à tardinha depois do Angelus. Quando precisavam dele, deviam procurá-lo lá»: lê-se na primeira biografia.[8]

O exagero devoto do pio hagiógrafo não deve fazer-nos esquecer o facto de que o Santo Cura soube também «habitar» activamente em todo o território da sua paróquia: visitava sistematicamente os doentes e as famílias; organizava missões populares e festas dos Santos Patronos; recolhia e administrava dinheiro para as suas obras sócio-caritativas e missionárias; embelezava a sua igreja e dotava-a de alfaias sagradas; ocupava-se das órfãs da «Providence» (um instituto fundado por ele) e das suas educadoras; tinha a peito a instrução das crianças; fundava confrarias e chamava os leigos para colaborar com ele.

O seu exemplo induz-me a evidenciar os espaços de colaboração que é imperioso estender cada vez mais aos fiéis leigos, com os quais os presbíteros formam um único povo sacerdotal[9] e no meio dos quais, em virtude do sacerdócio ministerial, se encontram «para os levar todos à unidade, “amando-se uns aos outros com caridade fraterna, e tendo os outros por mais dignos” (Rm 12, 10)».[10] Neste contexto, há que recordar o caloroso e encorajador convite feito pelo Concílio Vaticano II aos presbíteros para que «reconheçam e promovam sinceramente a dignidade e participação própria dos leigos na missão da Igreja. Estejam dispostos a ouvir os leigos, tendo fraternalmente em conta os seus desejos, reconhecendo a experiência e competência deles nos diversos campos da actividade humana, para que, juntamente com eles, saibam reconhecer os sinais dos tempos». [11]

O Santo Cura ensinava os seus paroquianos sobretudo com o testemunho da vida. Pelo seu exemplo, os fiéis aprendiam a rezar, detendo-se de bom grado diante do sacrário para uma visita a Jesus Eucaristia.[12] «Para rezar bem – explicava-lhes o Cura –, não há necessidade de falar muito. Sabe-se que Jesus está ali, no tabernáculo sagrado: abramos-Lhe o nosso coração, alegremo-nos pela sua presença sagrada. Esta é a melhor oração».[13] E exortava: «Vinde à comunhão, meus irmãos, vinde a Jesus. Vinde viver d’Ele para poderdes viver com Ele».[14] «É verdade que não sois dignos, mas tendes necessidade!».[15] Esta educação dos fiéis para a presença eucarística e para a comunhão adquiria um eficácia muito particular, quando o viam celebrar o Santo Sacrifício da Missa. Quem ao mesmo assistia afirmava que «não era possível encontrar uma figura que exprimisse melhor a adoração. (...) Contemplava a Hóstia amorosamente».[16] Dizia ele: «Todas as boas obras reunidas não igualam o valor do sacrifício da Missa, porque aquelas são obra de homens, enquanto a Santa Missa é obra de Deus».[17] Estava convencido de que todo o fervor da vida de um padre dependia da Missa: «A causa do relaxamento do sacerdote é porque não presta atenção à Missa! Meu Deus, como é de lamentar um padre que celebra [a Missa] como se fizesse um coisa ordinária!».[18] E, ao celebrar, tinha tomado o costume de oferecer sempre também o sacrifício da sua própria vida: «Como faz bem um padre oferecer-se em sacrifício a Deus todas as manhãs!».[19]

Esta sintonia pessoal com o Sacrifício da Cruz levava-o – por um único movimento interior – do altar ao confessionário. Os sacerdotes não deveriam jamais resignar-se a ver os seus confessionários desertos, nem limitar-se a constatar o menosprezo dos fiéis por este sacramento. Na França, no tempo do Santo Cura d’Ars, a confissão não era mais fácil nem mais frequente do que nos nossos dias, pois a tormenta revolucionária tinha longamente sufocado a prática religiosa. Mas ele procurou de todos os modos, com a pregação e o conselho persuasivo, fazer os seus paroquianos redescobrirem o significado e a beleza da Penitência sacramental, apresentando-a como uma exigência íntima da Presença eucarística. Pôde assim dar início a um círculo virtuoso. Com as longas permanências na igreja junto do sacrário, fez com que os fiéis começassem a imitá-lo, indo até lá visitar Jesus, e ao mesmo tempo estivessem seguros de que lá encontrariam o seu pároco, disponível para os ouvir e perdoar. Em seguida, a multidão crescente dos penitentes, provenientes de toda a França, haveria de o reter no confessionário até 16 horas por dia. Dizia-se então que Ars se tinha tornado «o grande hospital das almas».[20] «A graça que ele obtinha [para a conversão dos pecadores] era tão forte que aquela ia procurá-los sem lhes deixar um momento de trégua!»: diz o primeiro biógrafo.[21] E assim o pensava o Santo Cura d’Ars, quando afirmava: «Não é o pecador que regressa a Deus para Lhe pedir perdão, mas é o próprio Deus que corre atrás do pecador e o faz voltar para Ele».[22] «Este bom Salvador é tão cheio de amor que nos procura por todo o lado».[23]

Todos nós, sacerdotes, deveríamos sentir que nos tocam pessoalmente estas palavras que ele colocava na boca de Cristo: «Encarregarei os meus ministros de anunciar aos pecadores que estou sempre pronto a recebê-los, que a minha misericórdia é infinita».[24] Do Santo Cura d’Ars, nós, sacerdotes, podemos aprender não só uma inexaurível confiança no sacramento da Penitência que nos instigue a colocá-lo no centro das nossas preocupações pastorais, mas também o método do «diálogo de salvação» que nele se deve realizar. O Cura d’Ars tinha maneiras diversas de comportar-se segundo os vários penitentes. Quem vinha ao seu confessionário atraído por uma íntima e humilde necessidade do perdão de Deus, encontrava nele o encorajamento para mergulhar na «torrente da misericórdia divina» que, no seu ímpeto, tudo arrasta e depura. E se aparecia alguém angustiado com o pensamento da sua debilidade e inconstância, temeroso por futuras quedas, o Cura d’Ars revelava-lhe o segredo de Deus com um discurso de comovente beleza: «O bom Deus sabe tudo. Ainda antes de vos confessardes, já sabe que voltareis a pecar e todavia perdoa-vos. Como é grande o amor do nosso Deus, que vai até ao ponto de esquecer voluntariamente o futuro, só para poder perdoar-nos!».[25] Diversamente, a quem se acusava de forma tíbia e quase indiferente, expunha, através das suas próprias lágrimas, a séria e dolorosa evidência de quão «abominável» fosse aquele comportamento. «Choro, porque vós não chorais»:[26] exclamava ele. «Se ao menos o Senhor não fosse assim tão bom! Mas é assim bom! Só um bárbaro poderia comportar-se assim diante de um Pai tão bom!».[27] Fazia brotar o arrependimento no coração dos tíbios, forçando-os a verem com os próprios olhos o sofrimento de Deus, causado pelos pecados, quase «encarnado» no rosto do padre que os atendia de confissão. Entretanto a quem se apresentava já desejoso e capaz de uma vida espiritual mais profunda, abria-lhe de par em par as profundidades do amor, explicando a inexprimível beleza de poder viver unidos a Deus e na sua presença: «Tudo sob o olhar de Deus, tudo com Deus, tudo para agradar a Deus. (...) Como é belo!»[28] E ensinava-lhes a rezar assim: «Meu Deus, dai-me a graça de Vos amar tanto quanto é possível que eu Vos ame!».[29]

No seu tempo, o Cura d’Ars soube transformar o coração e a vida de muitas pessoas, porque conseguiu fazer-lhes sentir o amor misericordioso do Senhor. Também hoje é urgente igual anúncio e testemunho da verdade do Amor: Deus caritas est (1 Jo 4, 8). Com a Palavra e os Sacramentos do seu Jesus, João Maria Vianney sabia instruir o seu povo, ainda que frequentemente suspirava convencido da sua pessoal inaptidão a ponto de ter desejado diversas vezes subtrair-se às responsabilidades do ministério paroquial de que se sentia indigno. Mas, com exemplar obediência, ficou sempre no seu lugar, porque o consumia a paixão apostólica pela salvação das almas. Procurava aderir totalmente à própria vocação e missão por meio de uma severa ascese: «Para nós, párocos, a grande desdita – deplorava o Santo – é entorpecer-se a alma»,[30] entendendo, com isso, o perigo de o pastor se habituar ao estado de pecado ou de indiferença em que vivem muitas das suas ovelhas. Com vigílias e jejuns, punha freio ao corpo, para evitar que opusesse resistência à sua alma sacerdotal. E não se esquivava a mortificar-se a si mesmo para bem das almas que lhe estavam confiadas e para contribuir para a expiação dos muitos pecados ouvidos em confissão. Explicava a um colega sacerdote: «Dir-vos-ei qual é a minha receita: dou aos pecadores uma penitência pequena e o resto faço-o eu no lugar deles».[31] Independentemente das penitências concretas a que se sujeitava o Cura d’Ars, continua válido para todos o núcleo do seu ensinamento: as almas custam o sangue de Cristo e o sacerdote não pode dedicar-se à sua salvação se se recusa a contribuir com a sua parte para o «alto preço» da redenção.

No mundo actual, não menos do que nos tempos difíceis do Cura d’Ars, é preciso que os presbíteros, na sua vida e acção, se distingam por um vigoroso testemunho evangélico. Observou, justamente, Paulo VI que «o homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas».[32] Para que não se forme um vazio existencial em nós e fique comprometida a eficácia do nosso ministério, é preciso não cessar de nos interrogarmos: «Somos verdadeiramente permeados pela Palavra de Deus? É verdade que esta é o alimento de que vivemos, mais de que o sejam o pão e as coisas deste mundo? Conhecemo-la verdadeiramente? Amamo-la? De tal modo nos ocupamos interiormente desta palavra, que a mesma dá realmente um timbre à nossa vida e forma o nosso pensamento?».[33] Assim como Jesus chamou os Doze para estarem com Ele (cf. Mc 3, 14) e só depois é que os enviou a pregar, assim também nos nossos dias os sacerdotes são chamados a assimilar aquele «novo estilo de vida» que foi inaugurado pelo Senhor Jesus e assumido pelos Apóstolos.[34]

Foi precisamente a adesão sem reservas a este «novo estilo de vida» que caracterizou o trabalho ministerial do Cura d’Ars. O Papa João XXIII, na carta encíclica Sacerdotii nostri primordia – publicada em 1959, centenário da morte de S. João Maria Vianney –, apresentava a sua fisionomia ascética referindo-se de modo especial ao tema dos «três conselhos evangélicos», considerados necessários também para os presbíteros: «Embora, para alcançar esta santidade de vida, não seja imposta ao sacerdote como própria do estado clerical a prática dos conselhos evangélicos, entretanto esta representa para ele, como para todos os discípulos do Senhor, o caminho regular da santificação cristã».[35] O Cura d’Ars soube viver os «conselhos evangélicos» segundo modalidades apropriadas à sua condição de presbítero. Com efeito, a sua pobreza não foi a mesma de um religioso ou de um monge, mas a requerida a um padre: embora manejasse com muito dinheiro (dado que os peregrinos mais abonados não deixavam de se interessar pelas suas obras sócio-caritativas), sabia que tudo era dado para a sua igreja, os seus pobres, os seus órfãos, as meninas da sua «Providence»,[36] as suas famílias mais indigentes. Por isso, ele «era rico para dar aos outros e era muito pobre para si mesmo».[37] Explicava: «O meu segredo é simples: dar tudo e não guardar nada».[38] Quando se encontrava com as mãos vazias, dizia contente aos pobres que se lhe dirigiam: «Hoje sou pobre como vós, sou um dos vossos».[39] Deste modo pôde, ao fim da vida, afirmar com absoluta serenidade: «Não tenho mais nada. Agora o bom Deus pode chamar-me quando quiser!».[40] Também a sua castidade era aquela que se requeria a um padre para o seu ministério. Pode-se dizer que era a castidade conveniente a quem deve habitualmente tocar a Eucaristia e que habitualmente a fixa com todo o entusiasmo do coração e com o mesmo entusiasmo a dá aos seus fiéis. Dele se dizia que «a castidade brilhava no seu olhar», e os fiéis apercebiam-se disso quando ele se voltava para o sacrário fixando-o com os olhos de um enamorado.[41] Também a obediência de S. João Maria Vianney foi toda encarnada na dolorosa adesão às exigências diárias do seu ministério. É sabido como o atormentava o pensamento da sua própria inaptidão para o ministério paroquial e o desejo que tinha de fugir «para chorar a sua pobre vida, na solidão».[42] Somente a obediência e a paixão pelas almas conseguiam convencê-lo a continuar no seu lugar. A si próprio e aos seus fiéis explicava: «Não há duas maneiras boas de servir a Deus. Há apenas uma: servi-Lo como Ele quer ser servido».[43] A regra de ouro para levar uma vida obediente parecia-lhe ser esta: «Fazer só aquilo que pode ser oferecido ao bom Deus».[44]

No contexto da espiritualidade alimentada pela prática dos conselhos evangélicos, aproveito para dirigir aos sacerdotes, neste Ano a eles dedicado, um convite particular para saberem acolher a nova primavera que, em nossos dias, o Espírito está a suscitar na Igreja, através nomeadamente dos Movimentos Eclesiais e das novas Comunidades. «O Espírito é multiforme nos seus dons. (…) Ele sopra onde quer. E fá-lo de maneira inesperada, em lugares imprevistos e segundo formas precedentemente inimagináveis (…); mas demonstra-nos também que Ele age em vista do único Corpo e na unidade do único Corpo».[45] A propósito disto, vale a indicação do decreto Presbyterorum ordinis: «Sabendo discernir se os espíritos vêm de Deus, [os presbíteros] perscrutem com o sentido da fé, reconheçam com alegria e promovam com diligência os multiformes carismas dos leigos, tanto os mais modestos como os mais altos».[46] Estes dons, que impelem não poucos para uma vida espiritual mais elevada, podem ser de proveito não só para os fiéis leigos mas também para os próprios ministros. Com efeito, da comunhão entre ministros ordenados e carismas pode brotar «um válido impulso para um renovado compromisso da Igreja no anúncio e no testemunho do Evangelho da esperança e da caridade em todos os recantos do mundo».[47] Queria ainda acrescentar, apoiado na exortação apostólica Pastores dabo vobis do Papa João Paulo II, que o ministério ordenado tem uma radical «forma comunitária» e pode ser cumprido apenas na comunhão dos presbíteros com o seu Bispo.[48] É preciso que esta comunhão entre os sacerdotes e com o respectivo Bispo, baseada no sacramento da Ordem e manifestada na concelebração eucarística, se traduza nas diversas formas concretas de uma fraternidade sacerdotal efectiva e afectiva.[49] Só deste modo é que os sacerdotes poderão viver em plenitude o dom do celibato e serão capazes de fazer florir comunidades cristãs onde se renovem os prodígios da primeira pregação do Evangelho.

O Ano Paulino, que está a chegar ao fim, encaminha o nosso pensamento também para o Apóstolo das nações, em quem refulge aos nossos olhos um modelo esplêndido de sacerdote, totalmente «doado» ao seu ministério. «O amor de Cristo nos impele – escrevia ele –, ao pensarmos que um só morreu por todos e que todos, portanto, morreram» (2 Cor 5, 14). E acrescenta: Ele «morreu por todos, para que os vivos deixem de viver para si próprios, mas vivam para Aquele que morreu e ressuscitou por eles» (2 Cor 5, 15). Que programa melhor do que este poderia ser proposto a um sacerdote empenhado a avançar pela estrada da perfeição cristã?

Amados sacerdotes, a celebração dos cento e cinquenta anos da morte de S. João Maria Vianney (1859) segue-se imediatamente às celebrações há pouco encerradas dos cento e cinquenta anos das aparições de Lourdes (1858). Já em 1959, o Beato Papa João XXIII anotara: «Pouco antes que o Cura d’Ars concluísse a sua longa carreira cheia de méritos, a Virgem Imaculada aparecera, noutra região da França, a uma menina humilde e pura para lhe transmitir uma mensagem de oração e penitência, cuja imensa ressonância espiritual há um século que é bem conhecida. Na realidade, a vida do santo sacerdote, cuja comemoração celebramos, fora de antemão uma viva ilustração das grandes verdades sobrenaturais ensinadas à vidente de Massabielle. Ele próprio nutria pela Imaculada Conceição da Santíssima Virgem uma vivíssima devoção, ele que, em 1836, tinha consagrado a sua paróquia a Maria concebida sem pecado e havia de acolher com tanta fé e alegria a definição dogmática de 1854».[50] O Santo Cura d’Ars sempre recordava aos seus fiéis que «Jesus Cristo, depois de nos ter dado tudo aquilo que nos podia dar, quis ainda fazer-nos herdeiros de quanto Ele tem de mais precioso, ou seja, da sua Santa Mãe».[51]

À Virgem Santíssima entrego este Ano Sacerdotal, pedindo-Lhe para suscitar no ânimo de cada presbítero um generoso relançamento daqueles ideais de total doação a Cristo e à Igreja que inspiraram o pensamento e a acção do Santo Cura d’Ars. Com a sua fervorosa vida de oração e o seu amor apaixonado a Jesus crucificado, João Maria Vianney alimentou a sua quotidiana doação sem reservas a Deus e à Igreja. Possa o seu exemplo suscitar nos sacerdotes aquele testemunho de unidade com o Bispo, entre eles próprios e com os leigos que é tão necessário hoje, como o foi sempre. Não obstante o mal que existe no mundo, ressoa sempre actual a palavra de Cristo aos seus apóstolos, no Cenáculo: «No mundo sofrereis tribulações. Mas tende confiança: Eu venci o mundo» (Jo 16, 33). A fé no divino Mestre dá-nos a força para olhar confiadamente o futuro. Amados sacerdotes, Cristo conta convosco. A exemplo do Santo Cura d’Ars, deixai-vos conquistar por Ele e sereis também vós, no mundo actual, mensageiros de esperança, de reconciliação, de paz.

Com a minha bênção.

Vaticano, 16 de Junho de 2009.

[Benedictus PP. XVI]


[1] Assim o proclamou o Sumo Pontífice Pio XI, em 1929.

[2] «Le Sacerdoce, c’est l’amour du cœr de Jésus», in Le Curé d’Ars. Sa pensée – son cœur, obra cuidada por Abbé Bernard Nodet (ed. Xavier Mappus, Foi Vivante, 1966), pág. 98. Em seguida, será citada: Nodet. A mesma frase aparece no Catecismo da Igreja Católica, n. 1589.

[3] Nodet, 101.

[4] Ibid., 97.

[5] Ibid., 98-99.

[6] Ibid., 98-100.

[7] Ibid., 183.

[8] MONNIN A., Il Curato d’Ars. Vita di Gian-Battista-Maria Vianney, vol. I (ed. Marietti, Turim 1870), pág. 122.

[9] Cf. Lumen gentium, 10.

[10] Presbyterorum ordinis, 9.

[11] Ibid., 9.

[12] «A contemplação é o olhar de fé, fixado em Jesus. “Eu olho para Ele e Ele olha para mim” – dizia, no tempo do seu santo Cura, um camponês d’Ars em oração diante do sacrário» (Catecismo da Igreja Católica, n. 2715).

[13] Nodet, 85.

[14] Ibid., 114.

[15] Ibid., 119.

[16] MONNIN A., o.c., II, pág. 430ss.

[17] Nodet, 105.

[18] Ibid., 105.

[19] Ibid., 104.

[20] MONNIN A., o.c., II, pág. 293.

[21] Ibid., II, pág. 10.

[22] Nodet, 128.

[23] Ibid., 50.

[24] Ibid., 131.

[25] Ibid., 130.

[26] Ibid., 27.

[27] Ibid., 139.

[28] Ibid., 28.

[29] Ibid., 77.

[30] Ibid., 102.

[31] Ibid., 189.

[32] Evangelii nuntiandi, 41.

[33] BENTO XVI, Homilia na Missa Crismal (9 de Abril de 2009).

[34] Cf. BENTO XVI, Discurso à Assembleia plenária da Congregação do Clero (16 de Março de 2009).

[35] Parte I.

[36] Este foi o nome que deu à casa onde fez alojar e educar mais de 60 meninas abandonadas. Para mantê-la, a nada se poupava: «J’ai fait tous les commerces imaginables» - dizia ele sorrindo (Nodet, 214).

[37] Nodet, 216.

[38] Ibid., 215.

[39] Ibid., 216.

[40] Ibid., 214.

[41] Cf. ibid., 112.

[42] Cf. ibid., 82-84.102-103.

[43] Ibid., 75.

[44] Ibid., 76.

[45] BENTO XVI, Homilia na Vigília de Pentecostes (3 de Junho de 2006).

[46] N. 9.

[47] BENTO XVI, Discurso aos Bispos amigos do Movimento dos Focolares e da Comunidade de Santo Egídio (8 de Fevereiro de 2007).

[48] Cf. n. 17.

[49] Cf. JOÃO PAULO II, Exort. ap. Pastores dabo vobis, 74.

[50] Carta enc. Sacerdotii nostri primordia, parte III.

[51] Nodet, 244.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

São João Baptista
padroeiro de uma das paróquias de Campo Maior
e uma das grandes devoções de Santa Beatriz da Silva.

Ao celebrarmos hoje a glória do Percursor,
São João Baptista,
proclamado o maior entre os filhos dos homens,

anunciaremos as Vossas maravilhas:
antes de nascer, ele exultou de alegria,
sentindo a presença do Salvador;
quando veio ao mundo,
muitos se alegraram pelo seu nascimento;
foi ele, entre todos os Profetas,
que mostrou o Cordeiro que tira o pecado do mundo;
nas águas do Jordão,
ele baptizou o autor do Baptismo
e desde então a água viva tem poder de santificar os crentes;
por fim deu o mais belo testemunho de Cristo,
derramando por Ele o seu sangue.
(do Prefácio da Solenidade do Nascimento de São João Baptista)

sábado, 20 de junho de 2009

ORAÇÃO PARA O ANO SACERDOTAL
Senhor Jesus,
Vós quisestes dar a Igreja, em São João Maria Vianney,
uma imagem vivente e uma personificação da caridade pastoral.
Ajudai-nos a viver bem este Ano Sacerdotal,
em sua companhia e com o seu exemplo.
Fazei que, a exemplo do Santo Cura D’Ars,
possamos aprender como estar felizes
e com dignidade diante do Santíssimo Sacramento,
como seja simples e quotidiana a vossa Palavra que nos ensina,
como seja terno
o amor com o qual acolheu os pecadores arrependidos,
como seja consolador
o abandono confiante à vossa Santíssima Mãe Imaculada
e como seja necessária a luta vigilante e fiel contra o Maligno.
Fazei, ó Senhor Jesus
que, com o exemplo do Cura D’Ars,
os nossos jovens possam sempre mais aprender
o quanto seja necessário, humilde e glorioso,
o ministério sacerdotal que quereis confiar
àqueles que se abrem ao Vosso chamado.
Fazei que também em nossas comunidades,
tal como aconteceu em Ars,
se realizem as mesmas maravilhas de graça
que fazeis acontecer quando um sacerdote
sabe “colocar amor na sua paróquia”.
Fazei que as nossas famílias cristãs
saibam descobrir na Igreja a própria casa,
na qual os vossos ministros possam ser sempre encontrados,
e saibam fazê-la bela como uma igreja.
Fazei que a caridade dos nossos pastores
anime e acenda a caridade de todos os fiéis,
de tal modo que todos os carismas,
doados pelo Espírito Santo,
possam ser acolhidos e valorizados.
Mas, sobretudo, ó Senhor Jesus,
concedei-nos o ardor e a verdade do coração,
para que possamos dirigir-nos ao vosso Pai Celeste,
fazendo nossas as mesmas palavras de São João Maria Vianney:
Eu Vos amo, meu Deus,
e o meu único desejo é amar-Vos
até o último suspiro da minha vida.
Eu Vos amo, Deus infinitamente amável,
e prefiro morrer amando-Vos
a viver um só instante sem Vos amar.
Eu Vos amo, Senhor,
e a única graça que Vos peço é a de amar-Vos eternamente.
Eu Vos amo, meu Deus,
e desejo o céu para ter a felicidade de Vos amar perfeitamente.
Eu Vos amo, meu Deus infinitamente bom,
e temo o inferno
porque lá não haverá nunca a consolação de Vos amar.
Meu Deus,
se a minha língua não Vos pode dizer a todo o momento que Vos amo,
quero que o meu coração Vo-lo repita cada vez que respiro.
Meu Deus,
concedei-me a graça de sofrer amando-Vos
e de Vos amar sofrendo.
Eu Vos amo, meu divino Salvador,
porque fostes crucificado por mim
e porque me tendes aqui em baixo crucificado por Vós.
Meu Deus,
concedei-me a graça de morrer amando-Vos
e de saber que Vos amo.
Meu Deus,
à medida que me aproximo do meu fim,
concedei-me a graça de aumentar
e aperfeiçoar o meu amor.
Amém.

sábado, 13 de junho de 2009

VIDA CONTEMPLATIVA...
Qual o sentido da Vida Contemplativa na Igreja?
Todos sabemos que, como São Paulo diz, a Igreja é um Corpo e, neste Corpo cada membro tem a sua função. Nem todos podem ser olhos, como nem todos podem ser mão ou pé… mas todos, absolutamente todos, são necessários e imprescindíveis para que o Corpo possa viver saudavelmente. Há membros exteriores, visíveis e há-os também interiores e invisíveis aos nossos olhos. O Coração é um destes. Mas por não se ver quem ousaria duvidar da sua importância? Assim é também na Igreja. É esta a função e o serviço da vida contemplativa na Igreja, ser coração: “bombear” para todas as partes do Corpo da Igreja a vida e a graça de Deus, o Amor de Deus, de maneira a dar vida e fecundidade a todo o Corpo da Igreja, a todas as actividades e ministério dos sacerdotes, dos Leigos, dos agentes de pastoral, de toda a Igreja e de todo o mundo. Uns falam de Deus aos homens, nós falamos dos homens a Deus, segundo a conhecida frase de São Bruno, Fundador da Cartuxa.
É uma vida escondida e por isso muito pouco conhecida. Quando é conhecida é valorizada por muitos e às vezes também é mal compreendida, por se julgar que é um desperdício passar uma vida inteira a rezar, e a entregar a vida por todos, quando há tanto a fazer neste mundo. S. João da Cruz, um grande Doutor da Igreja dizia “É mais útil à Igreja um acto de puro amor do que todas as obras juntas”. A Vida contemplativa só se entende à luz da fé, só se compreende quando se experimenta que Jesus é o Senhor do mundo, o Senhor de todos os corações, só se compreende quando acreditamos que d’Ele vimos, n’Ele vivemos e para Ele vamos… e que a nossa verdadeira vida não é esta, terrena, mas a vida eterna, para sempre, junto d’Ele. Quando acreditamos profundamente em tudo isto, não só compreendemos a importância da vida contemplativa, como a consideramos não apenas útil, mas indispensável. Através da oração e da entrega de vida, e através dos fortes elos que ligam todos os membros da Igreja, os contemplativos pela oração, podem ir a todos os lugares mais recônditos do mundo e fecundar a acção de Sacerdotes, Consagrados, Leigos, ajudar os doentes, os pobres, os necessitados e todos os atribulados deste mundo. Temos um exemplo em Santa Teresinha: esta Carmelita nunca saiu do seu Carmelo e no entanto no dia 14 de Dezembro de 1927, o Papa Pio XI proclamou Santa Teresa do Menino Jesus padroeira principal de todos os missionários, juntamente com São Francisco Xavier. Temos que ampliar o nosso conceito de eficácia que não se resume ao que fazemos como obras exteriores, visíveis, mas incluir “a parte de Deus” (que é a maior) e que é determinante da verdadeira eficácia.
Santa Teresinha, explica magistralmente o que é a vida contemplativa. Diz ela num dos seus escritos: “…Continuei a ler, sem desanimar e esta frase reconfortou-me: “Aspirai aos dons mais elevados, e ainda, vou mostrar um caminho que ultrapassa tudo.” E o Apóstolo vai explicando como os carismas melhores nada são sem o amor… E que a caridade é esse caminho que ultrapassa tudo e que conduz a Deus com total segurança Podia, finalmente, descansar… Ao olhar o corpo místico da Igreja, eu não me tinha reconhecido em nenhum dos membros descritos por S. Paulo; ou melhor, queria reconhecer-me em todos eles…
O amor deu-me a chave da minha vocação. Compreendi que se a Igreja tinha um Corpo composto por diferentes membros, não podia faltar-lhe o mais necessário, o mais nobre de todos eles. Compreendi que a Igreja tinha um coração e que esse coração estava ardendo de Amor. Compreendi que só o Amor podia fazer actuar os membros da Igreja; que se o Amor se apagasse, os apóstolos já não anunciariam o Evangelho e os mártires se negariam a derramar o seu sangue… Compreendi que o amor encerrava em si todas as vocações, que o amor era tudo, que o amor abarcava todos os tempos e lugares… Numa palavra, que o amor é eterno…! Então transbordante de alegria exclamei: Jesus, meu amor… por fim encontrei a minha vocação! A minha vocação é o amor…! Sim, encontrei o meu lugar na Igreja, e fostes Vós que mo destes. No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor… Assim serei tudo… Assim o meu sonho será realizado…!!!”
O que diz a Vida Contemplativa à Igreja?
Diz que todos podemos ser e devemos ser contemplativos, o mesmo é dizer, ser “amigos fortes de Deus”, nas palavras da grande Santa Teresa de Jesus, acreditando na Sua Palavra, na Sua vida em nós, no Seu Amor e dando testemunho desse Amor através de gestos muito concretos com os irmãos, começando pelos que nos estão mais próximos. Ser contemplativo/a não é pois, apenas aquela pessoa que reza, mas uma totalidade que, para além da oração, exige a conversão da vida e o testemunho de amor aos irmãos. O que é característico daquele que vive a dimensão contemplativa é compreender que toda a força para ser verdadeiramente de Jesus lhe vem Tu és do próprio Jesus que vive em si. O contemplativo reconhece que nada, mas nada vem das suas próprias forças, segundo a palavra de Jesus: “Sem Mim nada podeis fazer” e ao mesmo tempo sabe que o Senhor não só lhe dá a graça de que precisa a cada instante, como o próprio Jesus permanece em si e lhe faz companhia em cada momento da sua vida, como Ele próprio disse: “…meu Pai o amará, Nós viremos a Ele e faremos n’Ele a nossa morada”.
Escreveu a Beata Isabel da Trindade, uma Carmelita: “Desde que encontrei a Deus dentro da minha alma, nunca mais me senti só” e ainda, “pensa que não estás só e que o santo Deus está contigo para te amparar, abandona-te nos seus braços, Ele é todo Amor.”
É este o apelo que a vida contemplativa faz à Igreja: descobrir que o Senhor nos habita verdadeiramente, nos ama e quer caminhar dia após dia connosco, partilhando as nossas alegrias, sofrimentos, dores, esperanças e anseios mais profundos, profundidade esta a que mais ninguém, senão Ele, pode chegar para nos confortar, acompanhar, iluminar, ajudar e animar a uma vida sempre nova. Todos podemos chegar a fazer esta experiência de Deus nas nossas vidas: uma experiência quer dizer, experimentar de facto a presença viva de Jesus vivo em nós, na nossa vida, nos acontecimentos do dia a dia. Para isto é necessário dispormo-nos. Como? Através da oração silenciosa, da leitura da Palavra de Deus, da frequência assídua aos Sacramentos da Eucaristia e Confissão, pela entrega generosa aos Irmãos, começando pela própria Família… Este é o caminho que conduz sempre mais ao encontro com Ele.
A vida contemplativa apela igualmente ao valor da oração. A oração não tem necessidade de ser atendida naquilo que pede. O maior dom que a oração obtém é o próprio facto de se rezar por si mesmo, isto é, entrar em comunhão com Deus. Este é o fruto que a oração traz sempre consigo, superior a qualquer esperança ou pedido da nossa parte. A pouco e pouco ver-nos-emos transformados, com força para actuar, para suportar as dificuldades, para sermos melhores.
O que diz a Igreja à Vida Contemplativa?
A Igreja pede à Vida contemplativa que seja testemunho da primazia de Deus na vida do homem e da mulher do nosso tempo e de todos os tempos.
É a Igreja toda que sustenta igualmente a vida contemplativa com a sua oração, a oração de todos os fiéis, pois todos os contemplativos e contemplativas precisam muito que se reze por eles, para serem fiéis na missão a que o Senhor os chamou. Quanto mais a Igreja toda rezar pelos contemplativos, mais verdadeiros e fiéis serão os contemplativos na sua vocação e mais fortes serão as suas orações e o influxo que terão sobre todo o Povo de Deus, a Igreja e o mundo.
(fonte: Comissão Episcopal Vocações e Ministérios)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

67º aniversário da fundação
do Mosteiro Concepcionista de Campo Maior
A 10 de Junho de 1942, pelas 18 horas da tarde chegaram a Campo Maior, vindas de Villafranca del Bierzo - Léon (Espanha) as primeiras monjas Concepcionistas para fundarem um Mosteiro da Ordem da Imaculada em Portugal. Anteriormente chegaram a ser 6 mosteiros desta mesma ordem em Portugal.
À sua chegada repicaram os sinos, e meia hora depois começava a trezena a Santo António.
À entrada das madres para a Igreja, formavam alas um grupo de raparigas da Acção Católica, que cantando o Hino da Beata Beatriz da Silva, lhe lançavam flores. Queriam tornar-lhes aprazível este exílio voluntário, e suavizar-lhes um pouco as agruras da fundação. Mas a cruz do Senhor pesa sempre a seu tempo. Durante a trezena de Santo António estiveram na Igreja e uma vez terminada foram receber as felicitações das pessoas presentes.
Acompanhadas dos dois Párocos da vila de Campo Maior, o Sr. P. Luciano Cutileiro e o Sr. P. Dr. Gabriel da Costa Gomes, e ainda de um grupo de senhoras e raparigas novas, que lhe tinham preparado as camas e as refeições para os primeiros dias, foram visitar as ruínas do Mosteiro. Neste momento é que começou a entrar um pouco de desânimo no coração das monjas, pois à medida que avançavam, encontravam a cada passo ruínas e mais ruínas, que eram povoadas apenas por animais diurnos e nocturnos, habitantes habituais de casas desabitadas e em ruína como o Mosteiro se encontrava, à 100 aproximadamente sem ser habitado.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Quadro que representa Nossa Senhora com o Menino, ladeada por Santo António de Lisboa e São Francisco de Assis.
Segundo reza a tradição, Santa Beatriz da Silva serviu de modelo ao pintor para que este pintasse Nossa Senhora.
O original é pertença da Santa Casa da Misericórdia de Campo Maior e uma cópia venera-se na Igreja do Mosteiro da Imaculada Conceição de Campo Maior.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Frei José Rodriguez Carballo ofm
re-eleito Ministro Geral dos Franciscanos
Frei José Rodriguez Carballo foi re-eleito Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos).
Reunidos no 187º Capítulo Geral, na Igreja de Santa Maria dos Anjos, em Assis, os 152 representantes da Ordem confirmaram Frei José Rodriguez Carballo como responsável máximo da Ordem dos Frades Menores, em todo o mundo, na manhã desta de quinta-feira, dia 4.
O rito de eleição foi presidido pelo Delegado do Papa Bento XVI, o Cardeal Português José Saraiva Martins, durante o qual entregou ao neo-eleito "o selo de toda a Ordem dos Frades Menores".
Frei José Rodriguez Carballo, que completa 56 anos no próximo mês de Agosto, foi eleito Ministro da Ordem, num primeiro mandato, em 2003.
Natural de Espanha, foi Ministro da Província Franciscana de Santiago de Compostela, Presidente da União dos Frades Menores da Europa e Mestre dos jovens em formação. No seu currículo destaca-se ainda a formação bíblica, com licenciatura em Teologia Bíblica em Jerusalém eem Sagrada Escritura em Roma, tendo ensinado no Seminário Maior da cidade de Vigo e na Faculdade de Teologia de Santiago de Compostela.
Frei José Rodriguez Carballo é o 119° sucessor de São Francisco de Assis. Coordenará, até 2015, o trabalho dos 15.000 religiosos da Ordem dos Frades Menores, que trabalham em 113 Países.

domingo, 7 de junho de 2009

Ó meu Deus, Trindade que eu adoro,
ajudai-me a esquecer-me inteiramente
para me estabelecer em Vós,
imóvel e pacífica,
como se a minha alma estivesse já na eternidade.
Que nada possa perturbar a minha paz,
nem fazer-me sair de Vós, ó meu Imutável,
mas que cada minuto
me faça penetrar mais na profundidade do Vosso mistério.
Pacificai a minha alma,
fazei dela o Vosso céu,
a Vossa morada dilecta
e o lugar do Vosso repouso.
Que eu nunca Vos deixe ai só,
mas que nela esteja inteiramente,
toda desperta na minha fé,
toda em adoração,
toda entregue à Vossa acção criadora.
Ó meu Cristo amado, crucificado por amor,
eu quisera ser uma esposa para o Vosso Coração,
quisera cobrir-Vos de glória,
quisera amar-Vos... até morrer de amor!
Mas sinto a minha impotência
e peço-Vos para me «revestirdes de Vós mesmo»,
identificardes a minha alma com todos os movimentos da Vossa,
me submergirdes, me invadirdes, Vos substituirdes a mim
para que a minha vida não seja senão uma irra­diação da Vossa.
Vinde a mim como Adorador, como Reparador e como Salvador!
Ó Verbo Eterno, Palavra do meu Deus,
eu quero passar a minha vida a escutar-Vos,
quero ser intei­ramente dócil para aprender tudo de Vós.
E depois, através de todas as noites,
de todos os vazios,
de todas as impotências,
eu quero fixar-Vos sempre
e permanecer sob o esplendor da Vossa luz.
Ó meu Astro adorado, fascinai-me
para que eu não possa mais sair da Vossa irradiação.
Ó Fogo devorador, Espírito de Amor, «descei sobre mim»,
para que se faça na minha alma,
como que uma incarnação do Verbo.
Que eu seja para Ele uma humanidade de acréscimo,
na qual Ele renove todo o Seu mistério.
E Vós, Ó Pai, inclinai-Vos para a Vossa pequena criatura,
«cobri-a com a Vossa sombra»,
não vejais nela senão o Bem Amado
no qual «pusestes todas as Vossas complacências.»
Ó meus Três, meu Tudo, minha Beatitude,
Solidão infinita, Imensidade em que me perco,
eu me entrego a Vós como uma presa.
Sepultai-Vos em mim para que eu me sepulte em Vós,
enquanto espero ir con­templar,
na Vossa luz,
o abismo das Vossas gran­dezas.
beata Isabel da Santíssima Trindade ocd

sábado, 6 de junho de 2009

video
Em pós-comunhão,
da Eucaristia de Acção de Graças,
na Iniciação à Vida Religiosa
de soror Maria Helena de Jesus oic.
Iniciação à Vida Religiosa
de Soror Maria Helena de Jesus oic
Quando às 15h começou o Rito da Iniciação à Vida Religiosa (tomada de hábito) de soror Maria Helena de Jesus oic a que se seguiu a Eucaristia de Acção de Graças, a Igreja monástica estava cheia e festiva.
Muitos jovens (Escuteiros, Convivas...), família de sor Helena, gente da sua terra, amigos, duas noviças moçambicanas das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres com a sua mestra, seminaristas (do Seminário Menor de Vila Viçosa e do Seminário Maior de Évora), um diácono permanente, nove sacerdotes, e o Sr. D. Maurílio de Gouveira (arcebispo emérito de Évora) que presidiu à Eucaristia.
Enfim, festa... Festa da comunidade monástica de Campo Maior, festa da comunidade de origem de sor Helena, festa da sua família e amigos, festa da Igreja Arquidiocesana, Festa no Paraíso por mais um passo desta generosa jovem alentejana... rumo à consagração total ao jeito de Santa Beatriz da Silva, louvando e reproduzindo, na sua vida, as virtudes de Maria Imaculada.